O papa Francisco declarou, nesta segunda-feira (31), o padre cearense José Antônio Maria Ibiapina como venerável — uma das etapas da causa de beatificação e canonização da Igreja Católica. Em decreto, o pontífice reconheceu as virtudes heroicas do religioso natural de Sobral, que viveu no século XIX, e que já era considerado servo de Deus.
Com o reconhecimento, padre Ibiapina avança na causa para ser considerado santo. O advogado José Luís Lira, especialista em Direito Canônico, explica que a declaração é resultado da análise e aprovação, pelo Vaticano, das virtudes heroicas — prudência, temperança, fortaleza, justiça, fé, esperança e caridade — do religioso.
Agora, acontece a análise dos eventuais milagres e depois, quando aprovado o milagre — que é um processo rigoroso na Santa Sé —, vem a beatificação. Se houver o reconhecimento de um segundo milagre, haverá a canonização e ele pode ser tornar santo plenamente”, José Luís Lira - Advogado especialista em Direito Canônico
Apesar de ter nascido no Ceará, a trajetória religiosa do padre Ibiapina foi trilhada em diversas localidades da região Nordeste, principalmente nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte, onde fundou várias casas de acolhimento e assistência à saúde, educação cultural e moral, formação religiosa e profissionalizante.
Segundo o anúncio do decreto pelo Vaticano News, o sarcedote recebeu o reconhecimento
por sua existência exemplar, por ter vivido uma fé intensa, alimentada pela oração constante e pela Eucaristia e evidenciada por sua constante confiança em Deus e em sua Providência em cada escolha de vida. A fama de santidade que o acompanhou durante sua vida continuou após sua morte, acompanhada de testemunhos de graças."
Quem foi padre Ibiapina
O religioso nasceu em Sobral no dia 5 de agosto de 1806. No fim da adolescência, em 1823, ingressou pela primeira vez no seminário, em Olinda (PE). No entanto, não pôde concluir os estudos e se ordenar devido à morte prematura da mãe.
No ano seguinte, com a revolta antilusitana, o pai e o irmão dele foram presos como rebeldes e condenados — o primeiro foi executado, enquanto o outro foi exilado. Sem os familiares, José Antônio Maria Ibiapina teve que se dedicar aos estudos para trabalhar e sustentas as irmãs, que continuavam na pobreza.
Jurista e político
Ao concluir a formação em Direito, tornou-se professor, depois magistrado e posteriormente delegado de polícia da Prefeitura de Quixeramobim (CE).
Em 1834, foi eleito para o Parlamento Nacional, onde foi presidente da Comissão de Justiça Criminal. No ano seguinte, o cearense apresentou um projeto de lei para impedir o desembarque de escravos vindos da África em território brasileiro.
No entanto, suas tentativas para melhorar o sistema judiciário não tiveram sucesso. Então, renunciou ao cargo de juiz e, uma vez encerrado seu mandato político, não renovou a candidatura ao Legislativo. Em seguida, José Antônio Maria Ibiapina mudou-se para Recife (PE), onde visava exercer a advocacia para os mais pobres.
Em 1850, abandonou oficialmente a carreira jurídica, retirou-se para a solidão e voltou a cultivar a vocação inicial de sacerdote. Então, em 1853, foi finalmente ordenado padre.
Trajetória religiosa
Na diocese da Paraíba, foi-lhe confiada várias tarefas e durante a epidemia de cólera entregou-se sem reservas, o que lhe rendeu o apelido popular de “peregrino da caridade”.
Fundou várias casas de acolhimento e assistência à saúde, educação cultural e moral, formação religiosa e profissionalizante nas regiões da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
Ele também organizou missões populares e fez construir igrejas, capelas, hospitais e orfanatos.
No final de 1875, o padre foi acometido por uma paralisia progressiva dos membros inferiores, sendo obrigado a recorrer ao uso de uma cadeira de rodas para se locomover.
O estado de saúde dele foi se agravando progressivamente, até que faleceu em 19 de fevereiro de 1883, aos 76 anos.
Diário do Nordeste